sexta-feira, junho 15, 2007

Noites Longas

Abro a garrafa, digo-me que é só mais um gole, mas não consigo, a cumplicidade já existe, ambos já nos conhecemos temos vidas em comum, no acordar penso em ti, desprezível sentimento porque?.
Por mais que queira és mais forte, fico fraco quando te bebo, quanto sinto o teu paladar, tornaste-me num inutíl, num ser sem sorte ou fortuna. Mesmo assim continuo a tua procura, para que?, o que move este sentimento irracional, de fuga à realidade, a resposta esta escrita, mas a tortura mantém-se.
Estados de alma diversos tu já me provocaste, "Noites Longas", manhas sofridas, tardes de convívio, atingi contigo lugares que desconhecia, atravessei países distantes só para te ter comigo, já fazes parte da minha historia, mas não podes ser figura principal.
Acabo com a garrafa, sinto o prazer do dever realizado, nada à mais a dizer, que venha a próxima, "C ' est la vie".



"Don't fool yourself,
she was heartache from the moment that you met her
my heart feels so still
as i try to find the will to forget her somehow
oh i think i've forgotten her now..."
J.B


terça-feira, junho 05, 2007

“I’m ready to go anywhere…”

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“Germán e Aurelino respondiam-lhe às cartas. Escreveu tantas nos primeiros meses, que então se sentiam mais perto dele do que quando estava em Macondo, e quase se aliviaram da raiva de que tivesse partido. No princípio mandava dizer que tudo continuava na mesma, que na casa onde nasceu ainda estava o caracol rosado, que os arenques secos tinham o mesmo sabor no pão torrado, que as cascatas da aldeia continuavam a perfumar-se ao entardecer. Eram outra vez as folhas de cadernos retomadas com gatafunhos roxos, nos quais dedicava um parágrafo especial a cada um. No entanto, e sem que ele próprio parecesse notar, aquelas cartas de recuperação e estímulo iam-se transformando a pouco e pouco em pastorais de desengano. Nas noites de Inverno, enquanto fervia a sopa na lareira, tinha saudades do calor da sua loja, do zumbindo do sol nas amendoeiras cheias de pó, do apito do comboio no sopor da sesta, como em Macondo tinha saudades da sopa de Inverno na lareira, dos pregões do vendedor do café e das cotovias fugazes da Primavera. Aturdido por duas nostalgias defrontadas como em dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido da realidade, até que acabou por recomendar a todos que saíssem de Macondo, que esquecessem quanto ele lhes ensinara sobre o mundo e o coração humano, que se estivessem nas tintas para Horácio, e que, fosse onde fosse que estivessem, recordassem sempre que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda a primavera antiga era irrecuperável, e que o amor mais desatinado e persistente era, de todos os modos, uma verdade efémera."

Gabriel Garcia Marquez, in Cem anos de solidão.