terça-feira, junho 05, 2007

“I’m ready to go anywhere…”

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“Germán e Aurelino respondiam-lhe às cartas. Escreveu tantas nos primeiros meses, que então se sentiam mais perto dele do que quando estava em Macondo, e quase se aliviaram da raiva de que tivesse partido. No princípio mandava dizer que tudo continuava na mesma, que na casa onde nasceu ainda estava o caracol rosado, que os arenques secos tinham o mesmo sabor no pão torrado, que as cascatas da aldeia continuavam a perfumar-se ao entardecer. Eram outra vez as folhas de cadernos retomadas com gatafunhos roxos, nos quais dedicava um parágrafo especial a cada um. No entanto, e sem que ele próprio parecesse notar, aquelas cartas de recuperação e estímulo iam-se transformando a pouco e pouco em pastorais de desengano. Nas noites de Inverno, enquanto fervia a sopa na lareira, tinha saudades do calor da sua loja, do zumbindo do sol nas amendoeiras cheias de pó, do apito do comboio no sopor da sesta, como em Macondo tinha saudades da sopa de Inverno na lareira, dos pregões do vendedor do café e das cotovias fugazes da Primavera. Aturdido por duas nostalgias defrontadas como em dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido da realidade, até que acabou por recomendar a todos que saíssem de Macondo, que esquecessem quanto ele lhes ensinara sobre o mundo e o coração humano, que se estivessem nas tintas para Horácio, e que, fosse onde fosse que estivessem, recordassem sempre que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda a primavera antiga era irrecuperável, e que o amor mais desatinado e persistente era, de todos os modos, uma verdade efémera."

Gabriel Garcia Marquez, in Cem anos de solidão.