Ermo lugar
E saí. Perdi-me por essas ruas e horas de confusão. Tomei-me a mim próprio como companheiro e fugi do mundo que me ocupa. Senti-me solto e livre. Senti-me em paz e inspirei a vida que me asfixia. Respirei, por fim. Sentei-me e calmamente me deixei ficar. Por ora não tive pressa. Porquê pensar e agir em segundos, se o mundo também é feito de minutos e horas? E assim fui ficando. Contemplei a luz que me invadia os olhos e ceguei-me na beleza do dia. E sorri. Abracei o momento com a alegria de uma criança. Ausentei-me da multidão, que me rodeava, e que vive embalada na ignorância de não perceber que vive. E ali estava eu, na cidade, isolado. Era um momento único e venturoso. Só meu, em comunhão com o dia, a luz, a vida!...Era a realização do prazer de existir e de sentir…Afinal, que seríamos nós, seres humanos, sem a faculdade única de sentir?...Meras máquinas imperfeitas de existência trivial. E deixei-me ficar. A sentir, a pensar. Talvez não fosse o tempo e altura de pensar, bem o sei. Mas na vida nada é da forma como queremos, mas sim, e apenas da maneira que tem de ser. E naquele, como eu, ermo lugar, senti a ilusão da vida e do mundo de que faço parte. Mas, mais uma vez, ali não era tempo de pensar. Não era tempo de lamentar. Não era tempo de chorar. Apenas e somente de sentir. E assim, ignorante, naquele ermo lugar, fui feliz.
