terça-feira, março 15, 2005

A heroína dos nossos tempos

É noite. O frio aperta. A escuridão apodera-se do seu mundo. Pior, a solidão é o seu mundo. De súbito a brisa, gélida mas suave, adensa-se. O desespero é aparente. O sofrimento óbvio. A incerteza do momento é total. A consciência há muito não existe. O coração bate sufocado pela angústia. A sua mente não dá tréguas. De súbito o latir de um cão vadio invade a sua monótona solidão. As pernas tremem. O cão late. As suas unhas, como lâminas, entranham-se por entre a sua pele. O cão late. Está só, como sempre. Olha em volta, o vazio apodera-se da sua existência. A noite avança e ameaça a madrugada vindoura. O cão volta. Late loucamente. O som ecoa pela noite fria. O cão rodeia-o como se fosse um cadáver putrefacto. Não. È sua ilusão. Odeia tanto a noite como a noite o odeia a ele. Solta uma lágrima. Chora compulsivamente. A fraqueza emerge. Ergue os braços como quem pede ajuda. Ajoelha-se. Sofre. Quer mudar. Não tem forças. È mais forte do que ele. Os músculos cedem. Os espasmos começam. Não para de chorar. Arrepende-se do passado. Cancela o futuro. Acaba o presente. Toma a dose. Não resiste. È a ultima. Cai, sozinho como sempre. O cão não late. O sol nasce. A vida acaba.

segunda-feira, março 07, 2005

Provérbio

Cão que ladra...não mia.

Pensar em nada

Agora que a noite se debruça sobre a madrugada emergente detenho-me a pensar no nada, ou melhor “no pensar em nada”. Será possível pensarmos em nada? Questão curiosa esta. Ora vejamos, ao admitirmos que estamos a pensar em nada, desde logo assumimos que pensamos. Com isto, à partida, surge-nos o inato impulso de dizer:”então, estamos a pensar, só que estamos a pensar em nada”. Á primeira vista estaria o assunto encerrado. Mas se tomarmos em atenção o significado da palavra nada, a tendência altera-se. O nada vem descrito no dicionário, entre outros, como: “coisa nenhuma”;” ausência, quer absoluta quer relativa, de ser ou de realidade”;”o que não existe”;“o que se opõe ao ser”. De uma forma mais lata a palavra “nada” refere-se a tudo aquilo que não existe. Mais uma vez a duvida emerge. Ao pensarmos em nada estamos a pensar no que não existe e, inerentemente, somos confrontados com a possibilidade de tal, realmente, não ser praticável. Ora, pensar em algo que não existe (aqui fora dos domínios da imaginação e ficção) aparentemente não é possível. Após estes novos elementos surge, de novo, o nosso inato impulso a dizer:”pois, se calhar isso até é verdade…ora esta…”. Mas pensando duas vezes as duvidas surgem de novo. Nisto o nosso inato impulso solta a palavra que da o mote para a duvida:”mas…”. De facto pensar no que não existe não parece uma realidade minimamente plausível, mas no entanto, tal, não deixa de ser subjectivo pois as realidades mudam de indivíduo para indivíduo, isto é, a minha realidade não é obrigatoriamente as dos restantes mortais. Se tomarmos atenção todos temos momentos em que o nosso olhar se foca num único ponto, onde nos abstraímos do que nos rodeia e a nossa mente se enche de um tremendo vazio. Vazio!..Será que ao afirmamos que “estamos a pensar em nada”, não estamos enfim a afirmar que pensamos no vazio? Espreitando mais uma vez o dicionário o vazio vem definido como: “vão”;”que não contém nada”;”desprovido”. E aqui a complexidade adensa-se. Pegando nas duas definições, assumir que se pensa em nada é dizer que se pensa no que não existe, ou será na realidade pensar no vão, no que não contem nada?...Será que afinal dizer que se está a pensar em nada é no fundo estar a pensar num todo que nada contém?..De novo as questões e duvidas surgem como “papoilas saltitantes”.Em suma toda a complexidade ligada a simples fala popular do “estou a pensar em nada” traz inexoravelmente uma série de outras complexidades de teor filosófico, as quais nem sempre será possível obter um clara resposta. Mais uma vez o relativismo e o subjectivismo surgem nas questões que aparentemente são unânimes e consensuais.


Nota: será que pensar em nada será o mesmo que não existir?...

”penso, logo existo”.
René Descartes.



Nota: o nada pode ser definido como:”o que se opõe ao ser”...será que pensar em nada é opormo-nos a nossa própria essência?