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Tenho tempo. Nada sou, e nada tenho que ser. Algo já fui, mas não o serei de novo. Porquê? Porque sim. Porque a vida assim o quis. Não escolhi, fui escolhido. Subi. Subi de tal modo que caí. Morri e ainda espero a ressurreição. E o terceiro dia há muito passou. Não contenho a mente que me crucifica o coração. Sou culpado de me culpar a mim próprio, mesmo sabendo que a culpa não me pertence. Sinto a alma parva, amordaçada e retorcida. Dói. Penso de novo na culpa. Sei que não a tenho, mas esta também não morre sozinha. Escrevo, falo. As palavras são armas poderosas, não tenho cuidado com elas, e sou apanhado no meu próprio tiroteio. Que fazer? Peço iluminação, orientação, algo. Algo que me levante, que me dê vida. Mas o quê?...se esta vida depende da sua própria morte?..Sinto que pouco posso fazer. Mais, sinto que nada posso fazer. Contudo, tento. De nada me vale. E penso. Porquê?...O que mudou?...Não serei o que sempre fui?...Creio que sim. Sinto o vazio…e nada posso fazer para o evitar. Por mais que queira, e querer é poder. Não sei o que se passa comigo. Não me reconheço. Sinto-me inútil. Sinto-me indefeso. Uma marioneta presa entre as bruscas cordas do destino. Sinto um aperto. Sinto-me abafado. Sem forças, sem motivação, sem vontade. A razão sucumbe a emoção. Sinto-me sozinho, como nunca. A solidão é a companheira dos meus dias. E deixo-me levar, no lento morrer destes dias solitários. Será que fiz tudo que podia fazer?...de certo que não. Mas bem tentei. Será que o amanhã existirá para mim?..Ou será o amanhã, uma mera continuação do meu hoje. Espero que não. Sei que não existe dia sem fim. Espero a noite então. Mas por agora, é dia.
