A heroína dos nossos tempos
É noite. O frio aperta. A escuridão apodera-se do seu mundo. Pior, a solidão é o seu mundo. De súbito a brisa, gélida mas suave, adensa-se. O desespero é aparente. O sofrimento óbvio. A incerteza do momento é total. A consciência há muito não existe. O coração bate sufocado pela angústia. A sua mente não dá tréguas. De súbito o latir de um cão vadio invade a sua monótona solidão. As pernas tremem. O cão late. As suas unhas, como lâminas, entranham-se por entre a sua pele. O cão late. Está só, como sempre. Olha em volta, o vazio apodera-se da sua existência. A noite avança e ameaça a madrugada vindoura. O cão volta. Late loucamente. O som ecoa pela noite fria. O cão rodeia-o como se fosse um cadáver putrefacto. Não. È sua ilusão. Odeia tanto a noite como a noite o odeia a ele. Solta uma lágrima. Chora compulsivamente. A fraqueza emerge. Ergue os braços como quem pede ajuda. Ajoelha-se. Sofre. Quer mudar. Não tem forças. È mais forte do que ele. Os músculos cedem. Os espasmos começam. Não para de chorar. Arrepende-se do passado. Cancela o futuro. Acaba o presente. Toma a dose. Não resiste. È a ultima. Cai, sozinho como sempre. O cão não late. O sol nasce. A vida acaba.

2 Comments:
Eu sei k tu sabes!!!!!!!!!!!!!!!
Tens o dom da palavra a força da rima, simplesmente poderoso. ou não.
simplesmente lindo...
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