Viajar
“
15. Quarto de pensão
Há quanto tempo viajamos? Para quê? Se já não reparamos nas
paisagens. Atravessámo-las da mesma maneira que a solidão nos obrigou a
percorrer essas outras paisagens de cinza que sobrevivem na memória.
Viajamos porque é
necessário enfrentarmos o desamparo dos dias, ao mesmo tempo que procuramos um
ligar para descansar e nele ansiarmos por um regresso.
Um nome, um nome apenas,
evocando alguém, um lugar ou uma coisa, é a bagagem suficiente para avançar
pela noite dentro, esperar a morte, ou iniciarmos o regresso…
Alugámos um quarto.
Pernoitaremos aqui. Para lá das paredes deste quarto, na vasta noite do mar,
existe uma ilha. Vê-la-emos ao amanhecer.
Chegámos à aldeia ao
lusco-fusco. Entrámos nela por um largo onde uma rua se abre em direcção ao
mar.
A enseada que serve de porto
de abrigo avança pela terra adentro. Fecha-se como uma mão à tempestade. É um
lugar seguro para os barcos e para as lágrimas da alma…
Mas não há lágrimas na verdadeira
tristeza, assim como não há riso na alegria. Falo duma tristeza e duma alegria
fundas, escuras, como as minas escavadas, ano apos ano, para procurar um veio
de ouro.
(…)
Encostando-se ao vidro da
janela, a Helena diz:
- E se nos calássemos enquanto
a memória se esvazia. Está tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, terá um
peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas. Não sei… está tudo
ainda por acontecer.”
Al Berto – Degredo no Sul

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