Um fim de silêncio (após 2 )
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“- Nunca neguei a existência
dessa sacanagem, meu filho!
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- Mas aceita-la. Nada
fazes para a combater.
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- O meu silêncio não é
uma aceitação. E combato-a mais eficazmente do que tu.
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- De que maneira?
-
- Pela não-cooperação –
disse Gohar – Recuso-me a muito simplesmente a colaborar nessa imensa intrujice,
nesse embuste.
- -
Mas um povo inteiro
não pode permitir-se essa atividade negativa. As pessoas são obrigadas a
trabalhar - para viver. Como poderão elas deixar de colaborar?
- - Basta tornarem-se
todas pedintes. Quando tivermos num pais onde o povo seja unicamente
constituído por mendigo verás que coisa é esta soberba dominação. Caíra por
terra como pó. Acredita
Era a primeira vez que El Kordi ouvia Gohar falar num tom
de áspera violência. Com que então Gohar tinha as suas próprias ideias a respeito
da maneira de se derrubar o odioso poder. Porque razão nunca lhe teria dito
nada?
-
- Mas um povo de
mendigos já nós somos- disse ele.
- - Parece-me a mim que já
não há grande coisa a fazer.
-
- Há, há ainda muito
para fazer. Ainda há uma data gente como tu que continua a colaborar.
-
- Ai estás enganado,
mestre! Eu não faço praticamente coisa nenhuma. A minha presença no ministério
é quase uma sabotagem.
Gohar ficou silencioso; estava descontente consigo mesmo. A
enfase com que se exprimira lembrava-lhe por demais o pedantismo universitário.”
Mendigos e
altivos by Albert Cossery

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