quarta-feira, agosto 27, 2014

Um fim de silêncio (após 2 )



-          “- Nunca neguei a existência dessa sacanagem, meu filho!
-           - Mas aceita-la. Nada fazes para a combater.
-           - O meu silêncio não é uma aceitação. E combato-a mais eficazmente do que tu.
-           - De que maneira?
-          - Pela não-cooperação – disse Gohar – Recuso-me a muito simplesmente a colaborar nessa imensa intrujice, nesse embuste.
-          -  Mas um povo inteiro não pode permitir-se essa atividade negativa. As pessoas são obrigadas a trabalhar  - para viver. Como poderão elas deixar de colaborar?
-     - Basta tornarem-se todas pedintes. Quando tivermos num pais onde o povo seja unicamente constituído por mendigo verás que coisa é esta soberba dominação. Caíra por terra como pó. Acredita
Era a primeira vez que El Kordi ouvia Gohar falar num tom de áspera violência. Com que então Gohar tinha as suas próprias ideias a respeito da maneira de se derrubar o odioso poder. Porque razão nunca lhe teria dito nada?
-           - Mas um povo de mendigos já nós somos- disse ele.
-            - Parece-me a mim que já não há grande coisa a fazer.
-           - Há, há ainda muito para fazer. Ainda há uma data gente como tu que continua a colaborar.
-           - Ai estás enganado, mestre! Eu não faço praticamente coisa nenhuma. A minha presença no ministério é quase uma sabotagem.
Gohar ficou silencioso; estava descontente consigo mesmo. A enfase com que se exprimira lembrava-lhe por demais o pedantismo universitário.”

Mendigos e altivos by Albert Cossery